Monday, December 15, 2008

"Nao estava à espera..."

Afirmar no actual entorno que nao se estava à espera de algum tipo de desiderato pode parecer razoavelmente admissivel, tendo em conta a força com que muitos dos acontecimentos – o ultimo dos quais a descoberta da fraude de Madoff no final da semana passada – tem atingido a (falta de) estabilidade dos mercados financeiros e das economias a nivel mundial. 

Contudo o mesmo nao se podera dizer de pessoas que tem a responsabilidade de analisar dia a dia a evolucao de tais mercados e das economias, mais para mais, quando algumas dessas pessoas até há poucas semanas insistiam que em Portugal estariamos de alguma forma menos expostos, e portanto nao afectados, pela crise que afecta as grandes economias mundiais (como ja disse antes nos posts da Economista-Chefe, como se isto fosse possivel de alguma forma, mas ok). 

Pois mais fantástico soam as palavras da nossa já famosa Economista-Chefe que veio na passada quinta-feira assumir ao Diario Economico (guardei recorte porque me parece absolutamente maravilhosa a citacao) que “nao estava à espera” de numeros tao negativos. Podia estar aqui horas a reescrever o que ja disse antes, mas vou passar um pouco mais à frente porque se o tema fosse apenas que aprender com os erros era uma tarefa lograda pela nossa referida Economista nem sequer teriamos post. O que ocorre é que nao é isso que a referida senhora decide fazer, mas sim todo o contrario quando começa a justificar algo que em Setembro dizia que nao teria influencia na economia portuguesa como para que pudesse afirmar o que agora afirma: a situacao espanhola está a deixar as empresas portuguesas a braços com sérios problemas de escoamento de produtos

O proprio artigo é generoso em materia de facto para o economista-nao-chefe-mas-subordinado comentar. Além de se constatar que as exportacoes cairam 1% no terceiro trimestre, afirma-se que os dados do INE mostram que o investimento caíu mais de 1.8% em termos homologos com o periodo anterior. Cumulativamente, registou-se uma contracçao da criacao de riqueza em Portugal de 0,1%. Um trimestre de diminuicao na geracao de producao. 

Ora o quarto trimestre nao tem nenhuma probabilidade real de aparecer com um numero efectivo de crescimento do PIB. O governador do BdP ja o tinha admitido (ver post sobre este tema), dizendo agora o mesmo que a recessao tecnica é “possível”. Eu, correndo o risco de que me atirem pedras contra pessimismo por adiantado, assumo que é mais do que isso. Se nao for por medidas orcamentais tiradas da cartola do Eng. Socrates para fazer frente ao triplo-ano-eleitoral que aí vem, nao há como evitar este cenario. 

A geracao de riqueza/ produto num pais nao tem muitas fontes. Se as exportacoes tem tendencia de queda (nao resisto a dizer como é possivel que alguem nao pudesse esperar isto? Como?), se o investimento privado nao tem nenhuma indicacao de retoma, antes pelo contrario, restam o consumo privado e o gasto publico para equilibrar esta balanca, uma vez que as importacoes tem a tendencia de seguir com menos/mais intensidade, conforme descida/subida da actividade economica, o que se passa com as exportacoes, fazendo piorar o defice exterior, tal como se verificou também no terceiro trimestre. 

Ora o consumo, segundo dizem os analistas, economistas e até o ze-povinho (porque ate este consegue  perceber bem o que se dira a seguir) o consumo nao se verá muito afectado porque os agentes economicos ja fizeram desde há muito tempo (tanto quanto leva a economia portuguesa em crescimentos da economia de menos de 2% ao ano) um ajuste da sua funcao consumo de tal forma que agora esse mesmo ajuste nao é elastico com o que se passa a nivel mundial, ou seja, nao se verá alterado em quase nada. 

Bom resta pois a politica do estado...e nesta há que recordar as palavras do senhor Ministro das financas que admitiu há pouco tempo que se recusava a dizer que em Portugal houvesse recessao em 2008. 

Tal como o ministro e a economista-chefe, existirao alguns em Portugal que acham que podem dizer tudo sem ter com que pensar em potenciais consequencias de tais actos oratorios o de discurso meramente farsante. Mas continuo a acreditar que também há quem, enfrentando com o respeito e a dificuldade que desde há muito se deveria ter tido, a referida crise mundial, sabem que nao se pode “esconder o sol com uma peneira” e que Portugal esta farto de que lhe digam mentiras mesmo quando seriam mentiras que quereriamos ouvir. 

Coragem em politica nao se mostra por dizer o que os outros acham que nao se vai a passar. No meu entender, um politico corajoso é o que afirma o que se passa, quer os outros achem ou nao que se passe. 

Em Portugal precisamos mais de exaltacao, mas menos nas manifestacoes dos alunos e professores – atencao sem juizo de valor em cada uma delas. Menos nas dos magistrados e dos medicos. Menos nas greves. Menos nos protestos. Mais, muito mais na capacidade de demonstrar que o país nao precisava de arcar com o Estado se nao fosse desde há muito um Estado-dependente. 

Puxao de orelhas Por favor atencao à economista-chefe e ao ministro. 

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