Wednesday, March 11, 2009

C’est bonnet blanc et blanc bonnet



Ouvida na semana passada, por duas vezes, Ana Salgado disse que o presidente portista lhe pagou 5.000 euros por mês, durante um tempo largo, para manter nos diversos processos uma posição contrária à assumida pela sua irmã. Ana Salgado - que foi chamada no julgamento que está a decorrer na qualidade de testemunha de defesa do líder portista mas que acabou por ser dispensada por esta logo na 1.ª sessão - contou que teve um primeiro encontro com Pinto da Costa e que logo aí lhe foram entregues 500 euros.

 

Ana Salgado alega agora que Pinto da Costa e alguns advogados a que recorreu aproveitaram a sua fragilidade emocional e financeira para a conseguir colocar contra a irmã. Ana Salgado disse também que a defesa de Pinto da Costa lhe pediu para dizer, neste julgamento, que a sua irmã estava acamada no momento da visita do árbitro Augusto Duarte, o que diz ser mentira. in Record

 

O que acho verdaeiramente maravilhoso no mundo do futebol é que a promiscuidade abunda, as relacoes com o já de si “desbordado” e “caçiquento” poder local proliferam como bacterias em ambiente descontrolado e virulento e que, para rematar, a justiça quando finalmente chega a questionar – para bem de todo o credito que quer ter junto dos cidadaos – todos estes meandros sujos e podres acaba por fazer mais do mesmo: ignorar.

 

Entao a juiza de um processo, onde estao envolvidas 2 partes contrarias aqui mencionadas, ambas de forma directa (perdoem-me mas continuo a nao utilizar o portugues do novo acordo ortografico) opta por nao fazer constar esta informacao do processo nem a chamada por parte do MP desta senhora Ana Salgado? Porque? Porque nao foi levantado qualquer incidente com esta pessoa no processo. Entao por essa linha de pensamento muitas testemunhas arroladas estao a fazer um papel totalmente de fantoche (veja-se o caso do antigo namorado de Carolina Salgado) que, esse sim, com toda a certeza dirá respeito a muitos incidentes nao referenciados a este caso, mas que servem bem para desviar atencoes (bem ou mal) para temas que nao estao sobre a mesa.

 

Mais, esta senhora deu em tempos idos longas entrevistas na televisao, imediatamente após a publicacao do livro que estara na base do inicio da investigacao pelo MP, dizendo ser tudo uma mentira o que a sua irma dizia e que renegava familiarmente ligacoes com a mesma, com direito a audiencia de prime-time.

 

Obviamente que o facto de um dos arguidos – PdC – ter financiado este “filme” quasi-reality-show nao tem nada a ver com o caso. Claro que nao tem. Aliás como poderia ter a ver com alguma coisa? Acho que se tem a ver é com a derrota do Sporting ontem no Arena por 7-1. Foram os 5000 Euros de PdC que fizeram com que o Rui Patricio e o Polga dessem um banho de bola ao...sporting.

 

Nao chega já de fazer dos portugueses estupidos? Nao chega já de fazer dos tribunais e dos processos meros momentos de instrumentalizacao e teatralizacao dos tempos, para que o povo pense que a justica nos vale de algo? Nao chega de ver que no nosso país tudo se pode fazer menos pagar impostos pelos que ganham a sua vida a pulso, trabalhando horas a fio – e nao nao falo de coisas de sindicatos e afins, falo de quem nao tem ninguem para falar ao fim de muitas horas de auditoria numa semana em que se dormiu 3 horas por noite para auditar bancos que criam off-shores que nao servem para outra coisa que nao limpar creditos concedidos a filhos dos CEO’s enquanto se brinca com o dinheiro dos minoritarios. Nao chega já de fingir que em Portugal nunca ninguem será condenado por nada de absurdamente obvio que se tenha passado?

 

Quanto tempo nos falta para que nos corredores do poder as pessoas tenham medo de fazer mal as coisas e optem por defender quem os elege? Quanto mais teremos de esperar para que um juiz nao se esconde sobre o manto de interpretacao literal dos quesitos pronunciados num processo para ignorar o que de obvio se passa à sua volta?

 

Gostava de um dia imaginar que no meu país, no país onde os que amo sempre defenderam a liberdade, a mesma, essa Liberdade, nao fosse uma reminiscencia perdida de um desejo que nasceu cravo e rapidamente se tornou rosa, rosa hoje mais murcha, outrora de outra cor (mais alaranjada) e que nos deixa antever que o que podemos esperar do dia de amanha é tao simplesmente nada mais que...mais do mesmo, ou como dizem os franceses no seu distinto culto linguistico-teatral “c’est bonnet blanc et blanc bonnet”. Mais do mesmo...sempre.  

Thursday, March 5, 2009

Senhor Helder (in memoriam)


Ao longo da nossa vida passam muitas pessoas, algunas delas com um impacto muitissimo grande no nosso percurso e crescimento enquanto seres humanos que somos. Tal verifica-se a varios niveis, emocional, profissional, pessoal, de paixoes e hobbies, de fés.

Quem me conhece bem sabe que tenho uma fé sobrehumana num determinado clube desportivo. Nao importa qualificar. Nao é esse o ponto hoje.

O que importa neste momento é falar de uma dessas pessoas, um alguem que para mim transformou um prazer, um gosto, num modo de estar e viver a vida de forma partilhada com um conjunto de outras pessoas que aliás tiveram um papel fundamental em muitos outros aspectos da minha vida além deste.

Comecei a ir ao futebol com cerca de 5 anos. Levou-me o meu grande Amigo Saude. O primeiro dia que vamos à bola é um dia que por muito pequenos que sejamos nunca esquecemos. A entrada do estadio (que ja era imponente na altura, falamos de 1983-84, por aí) nao era como hoje, havia uns bocados de terra onde se instalavam as barracas com os artefactos de devocao, mesmo ao lado do campo de treino que ficava á direita, quando se subia a entrada, do estádio.

Comprou-me um equipamento sem marcas, do que à altura era a verdadeira e genuina indumentária do clube. Uma bandeira pouco maior que a minha cintura de entao e ai fomos. Ganhamos ao Belenenses 3-2. Vim contente, como viria tantas vezes mais em seguida. Com o Saude, e com o Luis, partilhei muitos anos de paixao na bancada central dos cativos oposta à bancada presidencial. Foram muitos campeonatos – sim na altura ainda ganhavamos muitas vezes de seguida e sem Calabote – muitas tacas, muitos jogos europeus, a fé no seu mais estranho fenomeno de absorcao da irracionalidade humana. Tive cativo até aos 18 anos, altura em que para me dedicar à faculdade e por forca de uma desmotivacao reinante no meu espirito, como em muitos outros, pela instabilidade de rumo desportivo e nao só, deixei de ir aos jogos. Foram alguns bons anos de ausencia, de aplicacao de conhecer muitas outras coisas, de momentos dificeis (um deles bem dificil) e de coisas boas também. Mas o clube nao ia bem.

Anos mais tarde, fruto de uma relacao pessoal muito intensa que coincidia com uma paixao clubistica ainda maior e devidamente partilhada, arranquei a minha namorada da altura e o meu Pai para um ano de cativo no novo estadio – realidade pos-Euro.

Foi um ano maravilhoso. Algo que nao vou esquecer. Puder estar na companhia destas duas pessoas, em particular do meu Pai, que durante tanto e tanto tempo nao compreendia a nossa dedicacao ao clube, à causa irracional, à fé, foi assombroso. Ganhámos. Celebrámos, vivemos intensamente. Por esta altura o Saude ja nao ia à bola e o Sr. Helder muito menos, este por motivos que tinham a ver tambem com a sua ja avancada idade.

Da forma como o meu Pai vive este nosso amor partilhado falarei noutro post.

O tempo antigo, dos campeonatos seguidos é o tempo da carrina Peugeot do Rui, o filho do Sr. Helder. O Saude apanhava-me na casa dos meus pais ao domingo de manha – como era bom ter jogos às quatro da tarde – comiamos um bife em casa deles (dos Saude) e o Rui passava à porta para nos dirigirmos à Segunda Circular. Muitos pequenos peisodios existem, mas há um que todos sabem que recordamos com particular alegria, ternura, enfim devocao, ainda que pareca um pouco caricato.

Um ano, rumámos a Setúbal. Era normal por vezes irmos fora de portas a ver o nosso clube jogar. Nesse ano a coisa – como era tradicao em Setubal – complicou-se e era um jogo quase decisivo para a atribuicao do campeonato. Se nao ganhassemos seria um passo atras que nos custaria bastante. Estavamos empatados, já na segunda parte e nós vimos o jogo do que na altura se chamava o “peao”, a zona do estadio mais baixa e por detras de uma das balizas.

A meio da segunda parte há uma falta na grande área do Setubal. A loucura total, o arbitro assinala grande penalidade e o Carlos Manuel agarra a bola para tentar a conversao do castigo maximo. A tensao acumulou-se e todos de pé paramos de gritar por momentos para seguir o lance capital. Golo, a loucura a redobrar, e ai quase que com os meus 6-7 anos me “desmaiava” de emocao. É nessa altura que o Sr. Helder “entra em accao” e me dá uma bofetada (sem maldade na cara) que funcionou como uma luva para que eu ficasse de novo atento ao jogo. Parece algo que se recorda com pouco interesse, mas a verdade é que é um episodio que a todos nos faz sorrir e sei que a ele também fazia muito.

Agora que nao está mais entre nós fisicamente, Sr. Helder, gostava que soubesse que continuara connosco a sua memoria viva, o seu legado de grande dedicacao a esta paixao que comungamos. E a saudade...eterna. Tal como eterno é este nosso Amor pelo Clube do nosso coracao. Até já.